Poema no escuro

- Bom dia… - digo sonolenta acariciando o vácuo. - Merda, esqueci que essa noite não.

Queria me revirar nos lençóis em desespero mas o movimento já se realizava internamente. Pesquei duas ou três vezes as horas no celular largado ao lado do travesseiro para só então perceber que - então - era tarde demais, novamente e sempre sem novas mensagens, sem novas ligações perdidas, sem novos e-mails sem novas cartas, que não havia verificado mas sabia que novamente, sem novas. Ultimamente nem mesmo quando sonhava havia algo que pudesse me alegrar era o mesmo rosto, o mesmo lugar e os mesmos movimentos e eu te olhando e dizendo dentro dos meus olhos Escrevi um poema pra você, na verdade um Poema mas você não sabe, acho que nem vai saber, escrevi enquanto transávamos, não tinha papel nem caneta então usei nossos corpos mesmo e ficou marcado, largado em fragmentos entre as peles mornas e úmidas e dizia mais ou menos assim:

Sei que seus pelos eriçavam e sua boca hesitava naquelas brechas cotidianas que a memória do corpo conseguia se esgueirar. Sei que teu corpo duro queimava brando no rastro de meu toque e sei também que parte da fina camada do suor que perfumava sua pele era obra nossa. Sei, enquanto escrevo, que de meu corpo emana um desejo infinito por teus pelos, gemidos líquidos e bocas, um desejo profundo que se eleva e possui tua mente, teus sentimentos e sobretudo teu corpo que numa inclinação sutil dos quadris sente meu colo que repousa sobre o teu, meus cabelos roçando teu rosto e os lábios por toda parte vagarosos e insanos segundo a lógica cotidiana. Assim…

E enquanto relia pra sua cara séria você fazia aquele tipo de piada do típico humor tão engraçado que é dolorido, era quando apagava aos poucos sua imagem e refazia outra, mais branda, aquela dos cabelos desgrenhados, de olhos fixos e negros, da boca semiaberta, a cabeça recostada, naquele momento que parecia um pequeno nada entre os limites. Gostava de imaginar uma intenção de sorriso ao terminar a leitura e que me puxava pela mão, como em nosso primeiro toque. Mas já era tarde e precisava me levantar e encarar outros rostos menos familiares e mais afáveis, daquele tipo com mais coragem de amar do que de transar, naquele tipo de proporção que alegra o coração e mata o corpo. Em verdade, disse te olhando do alto de meu travesseiro, prefiro o tipo que fica de preguiça na cama, deitado recitando sentimentos para não cair no clichê da proporção falada. Me levantei pois era dia e não mais você.

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  • #corpo #amar #conto #paradisia #poesia #poema #kuniichi #Caio F. de Abreu #contar #sexo #transa #boca #Salomé #Beiriz
  • Há 1 dia

A noite é como um olhar longo e claro de mulher. Sinto-me só. Em todas as coisas que me rodeiam, há um desconhecimento completo da minha infelicidade. A noite alta me espia pela janela, e eu, desamparado de tudo, desamparado de mim próprio, olho as coisas em torno com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam. Vago em mim mesmo, sozinho, perdido. Tudo é deserto, minha alma é vazia.

Vinicius de Moraes.
(via caosdapalavra)
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  • Há 1 semana
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Não importa quanto vá durar – é infinito agora.

Caio Fernando Abreu   (via caosdapalavra)
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  • Há 1 semana
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Sem borrar os lábios

Com o coração em pleno compasso.

Prefiro os amores meio-amados.

Aqueles que sentem mais saudade do corpo que de mim

Mas que entre um meio contentamento e outro

Pouco se dá e muito menos se é tirado.

As transas regulares por alguns meses

Que depois são abandonadas por desgaste ficcional.

O flerte manjado suficiente apenas para umedecer a boca

Detalhes importantes para uma trama banal.

Prefiro um meio-amor,

destes que se mantém mais por dentro que por fora.

Assim quem me toca nunca alcança

Os mistérios necessários à quem ama.

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  • Há 2 semanas

Vésperas

Ela tossia em pancadas. Foi a primeira coisa que percebi quando a conheci e a última coisa que lembro antes de esquecê-la, agora. Rodeada sempre pela mesma atmosfera segura de pessoas dóceis e fúteis o suficiente para que nunca saísse de sua zona de conforto, para que nunca realmente precisasse falar de si, ela era aquele tipo de presença que não se deixa notar mas basta que lhe ponha os olhos e não tem mais volta. Não sei bem o motivo mas ela exercia esse tipo de poder sobre as pessoas, quer fossem homens ou mulheres. Talvez fosse a propriedade ao falar calmamente sobre a vida ou apaixonadamente sobre qualquer literatura.

Às vezes tenho a impressão de que a felicidade é apenas um ensaio para a tristeza, me disse despreocupada enquanto cruzavamos a longa rua coberta por camadas de bares de todos os níveis. Nunca tinha uma boa resposta quando seus delírios se manifestavam, digo delírios pois jamais dizia coisas assim sem um bom motivo ou para qualquer ouvido oco. E se sim, era uma vez e nunca mais. E excepcionalmente hoje enquanto sua blusa branca salpicada de pontos minúsculos azuis, que bem poderiam ser flores, e seu jeans que roçavam no corpo pequeno estavam rodeados por nuvens ocasionais de fumaça do cigarro da semana, que talvez ela estivesse mesmo sozinha. Não digo pelas cervejas que vinhamos provando de bar em bar há alguns meses, nem por seus casos fortuitos com pessoas fracas demais para seu temperamento, muito menos pelos cigarros que se acabavam rapidamente entre seus lábios grosseiros, mas por insistir naquela mesma rua.

Aos finais de semana quando nossas fugas da rotina aconteciam, desciamos de braços dados marchando pelo caminho conhecido e então tínhamos em nossa frente sempre um grande filme de Jodorowsky acontecendo espontaneamente ante nossos olhos. Se o diabo está nos detalhes, Alejandro atua nas grandezas, ela me dizia com aquele tipo de olhar apertado que fitava a Augusta às três da manhã. Em seguida um homem me segurava a mão e berrava sobre a importância de que lhe comprasse um caixão – louro, alto, mais jovem do que eu e gozando de sua plena capacidade alcólatra -, de dentro do bar explodiam repentinos montes de gentes replicando certa teoria com canções de Caetano, versos de Sérgio Vaz e pequenos trechos de qualquer coisa num tipo de francês meio hispânico, tudo sempre orquestrado por majestosos gesticulares “Que bem poderiam ser de ventrículos manejando seus bonecos de palavras” e ela ria de minha confusão. Sujeitos que em meio ao trânsito dançavam um funk ou quem sabe a Sonata ao Luar de Beethoven, com maestria mediam seus passos ou os retassavam justo num possível momento derradeiro que era quando uma sinfonia de luzes piscantes de faróis, buzinas desafinadas e vociferares nonsense se misturavam às promessas de amor entre todos tipos de casais na beira da calçada. São amantes pelos carimbos pares em cada boca, é assim que se reconhece, cada um tem uma flor desabrochando nos lábios, sua mão beliscava a minha.

Quando chegava em nós as cinco da madrugada seus ombros se encolhiam um pouco e ficávamos sentados no meio-fio dividindo um pastel murcho e a última cerveja. Seus olhos brilhavam distantes fitando, de alguma forma, atentos a rua infinita que se esvaziava aos poucos e acolhia agora alguns poucos pares de amigos bêbados caído na calçada jurando eternidade ao porre, alguns outros que por meia dúzia de motivos turvos encaminhavam socos e pontapés tortos, moças que desfilavam imponentes com seu batom vermelho gasto provavelmente após acabar com algum inexperiente rapaz, outras que se uniam a grandes grupos e se abraçam ombro a ombro certas de que de manhã ficará tudo bem, ainda tinham aquelas que ao grudar um inseto qualquer em seu cabelo gritavam quase animadas “Tira! Tira!” e então acontecia a comoção de sempre para tirar a praga da pobre vítima, situação que ela ria e me apontava como a alegoria de uma pessoa triste numa roda de amigos; e mais alguns tipos perigosos em becos e entradas de bares em ruína esperando uma próxima desgraça. Eu alheio a tudo, menos a ela que agora virava o rosto para o lado oposto ao que estava para limpar um cisco clichê ou quem sabe uma lágrima mesmo e me olhava, de repente com aquele jeito de quem ama e me beijava os lábios unicamente uma vez – como ao fim de toda noite – e sorria quase feliz, me abraçando forte, dizendo devagar na beira de meu ouvido que “Ah, meu bem, quem me dera ser Augusta. Carnaval que antecede os Finados diariamente”. Minha mão lhe roçou os cabelos escuros de tinta e talvez meus olhos velhos e negros demais não a deixassem ver que sim, ela era véspera em mim. Assim que nossos olhares se pararam e um lampejo cruzou aquele par tão fatigado, ela abruptamente virou-se tossindo em pancadas, tão fortes agora que quase podia sentir me atingindo também e se levantou, atravessou a rua e seguiu andando na calçada oposta adentrando na Augusta sempre para nunca mais voltar – até o próximo fim de semana.

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  • #conto #carnaval #finados #augusta #ruaaugusta #Jodorowsky #caio f. de abreu
  • Há 2 semanas

São pequenos saltos que assistia sua felicidade dar. Salomé sorria sobre seu travesseiro ao ver as nuances daquela pele nos primeiros raios da manhã, e como as paredes rabiscadas e desenhadas pareciam tê-lo criado e posto ali jamais entenderia. Mas ele estava ali e pouco importava as fronteiras entre o real e o onírico, sabia somente que dentro de si havia uma força crescente que lhe impulsionava cada dia mais a dizer aquilo que fora crescendo sem querer conscientemente. Por mais que ali naquele quarto as palavras parecessem não fazer diferença, de alguma forma sentia todas pairando no ar atingindo o teto e voltando para acertar em cheio seus olhos duros que marejavam com tudo que sentia em demasia.
A pele escura respirava calmamente e os lábios, ternos, pareciam sibilar qualquer coisa inaudível. Os olhos negros como o breu do inconsciente me privavam das certezas agora repousadas sob suas palpebras e, porém enquanto lhe traçava caminhos conhecidos pelo ombro seus braços compridos se movimentavam ao meu redor trazendo-me para mais perto de si e lhe senti, em meio a um riso baixo - que bem poderia ser imaginário - selar demoradamente minha testa, repousando o queixo sobre minha cabeça. Assenti devagar rumo ao centro de seu peito e pequena de repente ultrapassava os limites das paredes ao desvendar o segredo de seus lábios.
O sms me despertou molemente e tão logo abri os olhos percebi que talvez o mundo daqueles que amam fosse, em verdade, um sonho dentro do sonho.

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  • Há 2 semanas

Restam apenas rastros.
Ruídos de palavras que resistem.
Reescrevo os traços de teu rosto
para compor as rotinas do lembrar.
Escrevo agora para reiterar:
Amor, fique um pouco mais.

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  • Há 2 semanas
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  • Há 2 semanas
  • 24

Quinta-feira: verbo imperativo

salomebeiriz:

Ávidas palavras se deitaram entre nossos lábios
Suspiros deslizavam em tuas mãos
Nossos cabelos pairavam numa névoa abafada que já não importava mais
Ali, no estreito que ainda insistia em nos separar ecoavam teus olhos dormentes e tua boca rubra de alento ou receio
Entregue à penúria de nos resistir
Agarra afoito a pele que em ti se derrama
mesclando enfim tu em mim

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  • Há 2 semanas
  • 2

Veias d’água se desmancham entre corpos.
Paixão diluída no vapor que exala na ponta do toque.
E o choque que molemente se desmancha e escorre entre pernas.
Chuva que raia controlada derretendo na superfície dos trêmulos pés
que também já se encaminham parar o derradeiro repousar.

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  • Há 1 mês
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