Salome


Numa noite de espera sem pressa: a Lua acendeu, e as estrelas do céu em forma de chuva deslizaram sobre a cidade exausta. Debruçada sobre a janela, pendi ao vazio. A boca aberta, a língua esticada pescando estrelas. A boca afogada em cadências. Cedem os joelhos, pende o corpo sobre a janela. Os olhos deixam seu olhar cair sobre a cidade e, junto Delas, desliza em cadência.

Meu estômago é uma bolsa de arte

que digere as palavras e as converte na matéria-prima do mundo

Minha boca é o pincel da vida

que engole e devolve o imprevisível

Meus pés são caminhos de cores

por onde se deitam todos os tipos de amores

Se a vida imita a arte

meu corpo está em toda parte

Se meu corpo é arte

a vida está em toda parte

Pois meus olhos são notas musicais

que floreiam sob os lamaçais

Se meu corpo imita a arte

sinto vida em toda parte

Ela temia o dia em que se fosse e eu ficasse só

Mas esqueceu que o atemporal jamais se evapora

E que a vida humana, essa sim, é passível de ser levada embora

A face fria é como o passar dos dias visto na perspectiva de alguém que lê sobre mil anos num livro de história qualquer.

Fevereiro

Os dias haviam passado em pleno êxtase ansioso por estar ali

naquele quarto de sempre, com a quietude de sempre

Seus dedos passeavam por meus cabelos calmamente

e meu rosto cadente quase iluminava ao ver seu semblante

Seus lábios murmuravam agora algum assunto banal

enquanto os meus se retorciam num espasmo

e o rosto cadente, agora fúnebre deixa pender algumas lágrimas, livres e incontidas

E ele me olha, chocado

mas meus olhos agora não tinham os seus

Encolhida  por dentro deixei a face retorcida livrar-se de sua chaga

E agora percebia que chorava um luto antecipado

Que as gotas suicidas em um único disparo

removeram a si mesma daquela realidade para a futura

E o choro, era o choro do luto

O luto inevitável

Noturna

Se as paredes tem ouvidos

as minhas estão surdas

Sabem somente choramingar minhas dores

e fazer lagoa em meu quarto

-

Se o pássaro urbano resiste

e ouço seu canto a cada manhã

Serei eu capaz de voar?

-

Ouço o baque dos carros contra o chão

Ouço o motor dos ônibus fumegantes

e sinto o tráfego espesso das pessoas ao redor

-

Fora da janela vejo o esganiçar entre cachorros

e o alarde dos gatos

O céu em seu luto corrompido pelo infernal rasgo de engenhocas

-

E sinto como se não houvesse lugar algum em que pudesse descansar

E sinto que o pássaro antes lá já foi repousar

-

Deito a cabeça no travesseiro com sincero pesar,

derramando sobre o sóbrio corpo as cortinas do último despertar

Sorrindo por ouvir o ruído do cantar de certo encantado com o luar

1 nota

O amor, ah amor, é coisa nossa
Ah amor, o amor é coisa rosa
Amor, o amor é coisa de gente curiosa
Ah, amor é coisa gostosa
Ah, amor! Amor! O amor…

1 nota

Meu ventre se parte em dois, assassinado pela Agonia. Pra ser sincera estou um pouco cansada desse enfadonho fingimento com as palavras que mascaram o que realmente sinto, mas deve ser sempre assim até conquistar a liberdade integral de expressão pois do contrário meu corpo cederá mais rapidamente e preciso dele, afinal, para continuar tudo que pretendo fazer.

É difícil demais ver a cada dia crescerem as asas que noite passada fora cortada. Quando o dia amanhece me sinto cansada demais para batê-las e simplesmente voltar para junto de onde pertenço: Tudo. Olho para o céu e me desespero ao perceber que até mesmo uma grosseria de metal pode voar e eu não! Então encontro conforto na árvore, na grande e quieta árvore… Vejo meu corpo minúsculo a encarando, escalando-a até chegar ao topo e então suicido-me. Morte poética, claramente. Cair como semente, germinar e crescer como uma delas. Grande e quieta e invisível. Mas sou só uma orquídea doente que precisa de um apoio para crescer da forma correta.

Que se dane! Meu norte é o quando.

#1

Seus olhos antes Sol agora se firmavam num incrível Apocalipse ante minha face, quanto mais fitava hipnotizada mais penetravam em mim; podia sentí-los cravejar cada mistério em minha carne e ofegava surpresa por constatar o calor que emanava de meu corpo, era como se o Sol estivesse criando uma réplica de si e a chama na terra cintilava e cripitava o mais alto que podia para encantar seu objeto de admiração. 

O alcancei e estendi meus braços o apertando de tal forma que nossas chamas se uniram e naquela manhã todos na Terra fitaram o céu estupefatos com o brilho que explodia do Sol e sua Chama e cegos todos ficaram pelo amor destes.

Um eterno rumor ronda o planeta azul, como um sussurro que ecoa dos mares que beijam as praias e atraem para estas cada pessoa em busca da única salvação da alma humana: Eu te amo!

Às vezes a vida tem um não sei quê

De vir lá de onde

Pra te deixar meio bambo

E bamboleio, bamboleio na sua cabeça

Mas se o leio

Ah, que devaneio… Sobra somente uma agitação puramente ingênua

Dessa coisa de não sei quê

Que vem e me deixa meio triste

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