Veias d’água se desmancham entre corpos.
Paixão diluída no vapor que exala na ponta do toque.
E o choque que molemente se desmancha e escorre entre pernas.
Chuva que raia controlada derretendo na superfície dos trêmulos pés
que também já se encaminham parar o derradeiro repousar.

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  • Há 2 semanas
  • 1

O tempo leva o característico, lava o subjetivo. A navalha perde o fio, a tempestade cessa… O arco-íris pode até se formar, mas só se o Sol estiver lá. O cabelo um dia vai crescer, os cachos platinar, o coração adoecer e a saudade sanar… Os beijos podem até estragar, mas só se não estiverem mais lábios lá.

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  • Há 3 semanas

No meio do peito tem uma pedra
Tem uma pedra no meio do peito
Jamais esquecerei o lapso captado por meus neurônios tão fatigados
Quando percebi que não tinha uma pedra no meio do peito
No meio do peito não tem uma pedra
Pois como você sabe, agora
No meio do estômago tem uma pedra
Tem uma pedra no meio do estômago
Ela pesa agora e pesará todos os dias para me lembrar
De como foi - como foi, como foi -
Quando disse que no meu caminho não teria mais pedra

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  • Há 3 semanas
  • 1

Intuição de sétimo dia

Em passos que vestem o chão de espera, eu danço.

Lá, onde o tempo está rasgado permanentemente.

Evolo sibilares grafados sob o código de teu nome

enquanto umedeço as razões que borbulham ante meus olhos.

Deixo que passem: a placa, a faixa, o fio que grudou em minha língua.

Eu não quero mais pensar a não ser com meu corpo.

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  • Há 3 semanas
  • 2

As cores do mundo se amontoaram diante de mim e dançaram frente ao pôr-do-sol para se moldar na saudade do calor. Após descansar, nasceu em plena madrugada - aquele período indeterminado entre o dia e a noite - do julho frio. Amornada as formas e os sentimentos, cresceram-lhe pernas cumpridas (para partir), mãos belas (para acariciar), lábios vermelhos (mas só ao amar) e olhos fundos par das horas nascido (para ornar a lembrança).

Se me perguntam por quê digo que nasceste para ocupar as vazias madrugadas que se assolam no abismo entre tua cor posta e minha cor posposta.

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  • #beiriz #tumblr #poesia #jodorowsky #cor #poema #fimdoromance
  • Há 4 semanas
  • 2

A poesia é fragmento

O entender vem do sentir. Sentir que vem de dentro e também da pele, da carne, da minha, do outro, do afetar-se, essa pele de matéria comum à tudo. De fora. E penetra pelos poros até atingir o âmago.

A poesia é toda âmago.

E poetar é não ter medo de se deixar atingir.

Quem lê uma poesia quer transcrever-se.

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  • Há 1 mês

Vésperar

rosto desonesto

palavra cardíaca

pele movediça

língua de desfazer pensamentos:

Véspera de você.

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  • Há 1 mês

Esvaziação

E então corremos, corremos, corremos, corremos… Sem pensar na conjugação.
Talvez seja essa a natureza de todo ato que não visa à ação.
Corremos, corremos, corremos, corremos… Sem lembrar de significação.
Talvez seja esse o fim de todo ato que não visa à emoção.

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  • Há 2 meses

Ascender

O chá esfumaçava e pairava pela sala sem nunca alcançar o teto.

Olhando ao redor percebia a contenção necessária que as paredes tinham como papel e, mesmo assim, como era difícil lidar com sua quietude, sua brancura sisuda. Meus pés deslizavam quentes de amor pelo piso que, duro como o coração amargurado, me recebia sem notar. E então os braços e as mãos alcançavam o ar pendendo de um tronco bruto demais para ser livre no vazio.

A queda de seus olhos ao chão dançava truncada em minha memória e, pensei, talvez não quisesse mesmo que seus dedos deixassem de me contar a história doce de um passado inventado por nós, e mesmo assim agora só restava um cigarro estranho aos nossos lábios largado aceso ao meio da sala vermelha e sempre vermelha. Mas talvez a gente não tenha mesmo esse controle sobre o que queremos, quem sabe disso deve ser o coração não o resto, o resto fica sabendo depois. Sim, tem razão, talvez seja isso. Sim, talvez.

Tomamos as mãos largadas ocupando com beijos os vazios que fomos incapazes de preencher. Há muito amor aqui, muito… É vermelha demais essa sala, já me disse isso. E na observação já morna e no caminho que esquecemos como percorrer no outro, teus pés de repente lembraram o caminho da porta, sem perceber o cigarro aceso, agora esmagado. Antes quente, bebi o chá agora gelado enquanto te assistia partir na calçada quebrada e mesmo longe poderia ver para sempre sua cabeça girando e os olhos retos fitando em minha direção, talvez somente para lembrar o caminho que mais tarde esqueceria.

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  • Há 2 meses
  • 1

O doutor, a rota e a felicidade

                                                                                               Para Willians Matos

Hoje acordei com um nó no peito.
Tendo ido ao médico, que usou um tom de voz baixo constantemente como para me acalmar ou como que para contrastar com o tom de seus olhos, fiquei sabendo que de fato era um nó, um nó de ar. Quando indagado me respondeu estufado que isso era causado pela entrada entrecortada de ar, geralmente pela boca e me devolveu a pergunta querendo saber se estivera gripada ultimamente ou se sabia respirar corretamente e me passou alguns exercícios que ajudariam a desfazer o dito.
As semanas passaram e junto da dor aumentada senti uma pequena área inchada no local do nó, latejante. Voltei ao doutor estufado que após me examinar deixou seus óculos darem duas piruetas, caindo ao chão e logo me levou exasperado para a sala de raio-x. De fato era um segundo coração. Aguados seus olhos me tinham perguntas incontestáveis que lhe respondi calmamente ser efeito talvez de um acumulo que errou o caminho do coração-primeiro e acabou semeando quem sabe algo que ali estava posto há muito.
Há meses a depressão se apossara, mesmo com tantas coisas acontecendo para o contrário disso, e ele então explicou que o coração-primeiro poderia ser substituído pelo -segundo, já que aquele estava muito gasto por tristezas e mal-dizeres. Dessa vez contestei. Retruquei que doutor jamais como poderia fazer isso se ele aguentou comigo até hoje? Por favor, disse se for possível gostaria que pudesse dá-lo a outra pessoa que precise pois está novinho, sou velha demais para um coração assim de forma que este só precisa que a rota das coisas voltem ao normal.
Hoje acordei com mais espaço no peito.

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  • #poema #conto #felicidade #coração #esperança #anatnas #sputnik #facebook #paradisia
  • Há 2 meses
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